Segundo pesquisadores, a “Técnica de Furlow” apresenta melhor resultado para fala em crianças do que “Técnica de Von Langenbeck”

Entre as técnicas comparadas pelo chamado “Projeto Flórida” - conhecidas pelos nomes de seus descobridores, “Furlow” e “Von Langenbeck” - o fonoaudiólogo William Williams, diretor do Centro Craniofacial da Universidade da Flórida, incumbiu-se de anunciar a tão esperada resposta: “A ‘Técnica de Furlow’ apresentou resultados mais significativos na fala das crianças operadas, já que alonga mais o palato”, afirmou.
Ambas são cirurgias de fechamento anatômico e funcional do palato (céu da boca) e de reposicionamento da musculatura para que o paciente possa ter condições de adquirir a capacidade da fala fluente. A diferença é que a técnica de Leonard Furlow utiliza incisões em “z” no palato, que, dessa forma, é alongado em maior extensão do que a técnica tradicional de “Von Langenbeck”.
As duas técnicas foram aplicadas em crianças de 9 a 12 meses e de 15 a 18 meses. O “Projeto Flórida” avaliou qual delas pode garantir o desenvolvimento normal da fala. “Não trabalhamos com amostragens ou suposições, mas sim com estatística matemática, portanto exata”, explica a pesquisadora do Centrinho/USP, Maria Inês Pegoraro Krook - ela própria, diretora do convênio com a Universidade da Flórida.
“Foram mais de 500 pacientes avaliados a cada seis meses (dos quais apenas 24 ainda não passaram por cirurgia)”, completa Pegoraro-Krook - também professora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB). Ela destaca o empenho da equipe multidisciplinar envolvida no programa: pediatras, cirurgiões plásticos, fonoaudiólogas, psicóloga, assistentes sociais e otorrinolaringologistas. “Enfrentamos juntos as dificuldades e, juntos, superamos as barreiras naturais que surgem a partir de uma pesquisa tão longa quanto complexa”.
“Flórida não é só Disney” - Pelo menos seis artigos em revistas especializadas internacionais e conferências em instituições devem trazer, nos próximos meses, detalhes sobre a “Técnica de Furlow” e suas vantagens no desenvolvimento da fala após cirurgia primária em crianças com fissura - todos, co-assinados por pesquisadores brasileiros e também norte-americanos. “Nem mesmo em meus sonhos mais incríveis imaginava que essa resposta seria, um dia, dada em parceria com o Brasil”, destaca William Williams.
Para os pesquisadores, o grande mérito da pesquisa ficou por conta de todas as variáveis que puderam ser controladas. “É o estudo clínico prospectivo mais significativo da história do tratamento de fissura”, disse a Williams um avaliador da OMS (Organização Mundial de Saúde) em 2000. “De lá para cá, pudemos comprovar que, de fato, o estudo traz importantes informações para os distúrbios da fala, linguagem e deglutição”, reafirma o pesquisador.
Williams observa que a fissura - uma das cinco malformações mais comuns no mundo - provoca um “efeito em cadeia” de exclusão social. “Por isso, não abrimos mão de que o tratamento seja completo.” Ele explica que uma das vantagens de trabalhar com o Centrinho/USP é o fato de haver tantos pacientes concentrados num só lugar. Ele mesmo compara: enquanto no hospital de Bauru há o registro de 1.200 casos novos por ano, a Universidade da Flórida contabiliza apenas 100.
Ele espera que, a partir de agora, outros hospitais passem a adotar a técnica de forma sistemática. “A pesquisa não foi apenas longa, mas produtiva. Basta dizer que apenas um paciente abandonou o tratamento durante o Projeto Flórida”, prossegue Williams. “A USP e o Centrinho ajudam a mostrar, com a parceria, que a Flórida não é só a Disney. A ciência e a pesquisa também fazem parte da nossa cultura.”
Colaboração e esperança - Palma Sola é uma pequena cidade de Santa Catarina quase na divisa com a Argentina. Bauru tem porte médio e fica no centro-oeste paulista. A Flórida é um dos mais importantes estados norte-americanos. Universos distintos e uma rota em comum: o Centrinho/USP. É no hospital que, desde o vigésimo terceiro dia de vida, a estudante Dhiully (escreve-se assim mesmo) Khauana Tiepo, oito anos, tenta ganhar o direito de uma vida normal. De ascendência italiana e nascida com fissura de lábio e palato, a menina integra o Projeto Flórida. Já passou por três cirurgias. Tímida, sorri ao dizer que está tudo bem.
“A gente já esteve em outras instituições que ficam em capitais, mas não é a mesma coisa”, conta a mãe, dona-de-casa Lucélia Floriano, 28 anos. “A Dhiully já recebeu prótese de palato, mas não se adaptou porque sentia ânsias. Agora, o próximo passo será a cirurgia para reposicionar a sua musculatura e alongar o palato mole”, explicava a fonoaudióloga Jeniffer de Cássia Rillo Dutka-Souza durante uma espécie de “raio-x” da fala com exibição de imagens da paciente, realizado em setembro de 2005. “Aqui é tudo muito legal”, repetia Dhiully sem esboçar o que seria um natural cansaço pelas 14 horas de viagem de ônibus entre Palma Sola e Bauru.
O entusiasmo é compartilhado pela mineira Vera Lúcia Arruda, 39 anos, mãe do garoto Vitor Augusto Arruda da Silva, de 5 anos (foto ao lado). “O Vitor se encaixava perfeitamente no perfil dos pacientes pesquisados. Ou seja: eles precisavam do meu filho e eu deles.”
Flórida II já pesquisa crescimento da face
Como ganhou fôlego para avançar por anos a fio - com financiamento do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, sigla em inglês) -, o projeto despertou a necessidade de busca de respostas complementares às respostas relativas à fala do paciente.
Por isso, já está em curso o chamado “Flórida II” - novo projeto que vai pesquisar aspectos do crescimento da face e dos arcos dentários, além da fala dos mesmos pacientes pesquisados até então. Agora, com idade entre seis e 12 anos. Nesta nova fase, impulsionada no início desse semestre, participam profissionais das áreas de fonoaudiologia, ortodontia e serviço social.
“Agora que já tivemos oportunidade de avaliar o desenvolvimento da fala do paciente em relação às técnicas cirúrgicas utilizadas e à idade, queremos estudar qual a técnica que menos interferiu no crescimento facial e também na fala desses mesmos pacientes em até dez anos após a cirurgia”, explica Pegoraro-Krook.
Com investimento de US$ 2,5 milhões, a pesquisa tem aprovação do Conep/MS (Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde) e do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (N.I.H.), que também financia o trabalho. A exemplo do “Projeto Flórida”, o “Flórida II” reúne tem grande relevância para a comunidade científica internacional. O prazo previsto para o desenvolvimento da pesquisa é de cinco ano
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