miércoles, 8 de septiembre de 2010

Estudos de 11 anos apostam em cirurgia para pacientes com fissura





Segundo pesquisadores, a “Técnica de Furlow” apresenta melhor resultado para fala em crianças do que “Técnica de Von Langenbeck”
Qual entre as duas técnicas cirúrgicas mais difundidas no mundo é a mais adequada para a reabilitação da fala de pessoas com fissura (fenda) de lábio e palato? A resposta - que poderá mudar protocolos de atendimento nessa especialidade ao redor do mundo - foi anunciada no último dia 20/9, em evento que reuniu cerca de 300 pesquisadores na cidade de Bauru (SP). Resposta, aliás, que consumiu onze anos de pesquisa só viável graças ao amplo número de amostras (casos clínicos) do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo - Centrinho, de Bauru -, que desenvolveu o estudo clínico em parceria com a Universidade da Flórida (EUA) e patrocínio do governo norte-americano.
Entre as técnicas comparadas pelo chamado “Projeto Flórida” - conhecidas pelos nomes de seus descobridores, “Furlow” e “Von Langenbeck” - o fonoaudiólogo William Williams, diretor do Centro Craniofacial da Universidade da Flórida, incumbiu-se de anunciar a tão esperada resposta: “A ‘Técnica de Furlow’ apresentou resultados mais significativos na fala das crianças operadas, já que alonga mais o palato”, afirmou.
Ambas são cirurgias de fechamento anatômico e funcional do palato (céu da boca) e de reposicionamento da musculatura para que o paciente possa ter condições de adquirir a capacidade da fala fluente. A diferença é que a técnica de Leonard Furlow utiliza incisões em “z” no palato, que, dessa forma, é alongado em maior extensão do que a técnica tradicional de “Von Langenbeck”.
As duas técnicas foram aplicadas em crianças de 9 a 12 meses e de 15 a 18 meses. O “Projeto Flórida” avaliou qual delas pode garantir o desenvolvimento normal da fala. “Não trabalhamos com amostragens ou suposições, mas sim com estatística matemática, portanto exata”, explica a pesquisadora do Centrinho/USP, Maria Inês Pegoraro Krook - ela própria, diretora do convênio com a Universidade da Flórida.
“Foram mais de 500 pacientes avaliados a cada seis meses (dos quais apenas 24 ainda não passaram por cirurgia)”, completa Pegoraro-Krook - também professora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB). Ela destaca o empenho da equipe multidisciplinar envolvida no programa: pediatras, cirurgiões plásticos, fonoaudiólogas, psicóloga, assistentes sociais e otorrinolaringologistas. “Enfrentamos juntos as dificuldades e, juntos, superamos as barreiras naturais que surgem a partir de uma pesquisa tão longa quanto complexa”.
“Flórida não é só Disney” - Pelo menos seis artigos em revistas especializadas internacionais e conferências em instituições devem trazer, nos próximos meses, detalhes sobre a “Técnica de Furlow” e suas vantagens no desenvolvimento da fala após cirurgia primária em crianças com fissura - todos, co-assinados por pesquisadores brasileiros e também norte-americanos. “Nem mesmo em meus sonhos mais incríveis imaginava que essa resposta seria, um dia, dada em parceria com o Brasil”, destaca William Williams.
Para os pesquisadores, o grande mérito da pesquisa ficou por conta de todas as variáveis que puderam ser controladas. “É o estudo clínico prospectivo mais significativo da história do tratamento de fissura”, disse a Williams um avaliador da OMS (Organização Mundial de Saúde) em 2000. “De lá para cá, pudemos comprovar que, de fato, o estudo traz importantes informações para os distúrbios da fala, linguagem e deglutição”, reafirma o pesquisador.
Williams observa que a fissura - uma das cinco malformações mais comuns no mundo - provoca um “efeito em cadeia” de exclusão social. “Por isso, não abrimos mão de que o tratamento seja completo.” Ele explica que uma das vantagens de trabalhar com o Centrinho/USP é o fato de haver tantos pacientes concentrados num só lugar. Ele mesmo compara: enquanto no hospital de Bauru há o registro de 1.200 casos novos por ano, a Universidade da Flórida contabiliza apenas 100.
Ele espera que, a partir de agora, outros hospitais passem a adotar a técnica de forma sistemática. “A pesquisa não foi apenas longa, mas produtiva. Basta dizer que apenas um paciente abandonou o tratamento durante o Projeto Flórida”, prossegue Williams. “A USP e o Centrinho ajudam a mostrar, com a parceria, que a Flórida não é só a Disney. A ciência e a pesquisa também fazem parte da nossa cultura.”
Colaboração e esperança - Palma Sola é uma pequena cidade de Santa Catarina quase na divisa com a Argentina. Bauru tem porte médio e fica no centro-oeste paulista. A Flórida é um dos mais importantes estados norte-americanos. Universos distintos e uma rota em comum: o Centrinho/USP. É no hospital que, desde o vigésimo terceiro dia de vida, a estudante Dhiully (escreve-se assim mesmo) Khauana Tiepo, oito anos, tenta ganhar o direito de uma vida normal. De ascendência italiana e nascida com fissura de lábio e palato, a menina integra o Projeto Flórida. Já passou por três cirurgias. Tímida, sorri ao dizer que está tudo bem.
“A gente já esteve em outras instituições que ficam em capitais, mas não é a mesma coisa”, conta a mãe, dona-de-casa Lucélia Floriano, 28 anos. “A Dhiully já recebeu prótese de palato, mas não se adaptou porque sentia ânsias. Agora, o próximo passo será a cirurgia para reposicionar a sua musculatura e alongar o palato mole”, explicava a fonoaudióloga Jeniffer de Cássia Rillo Dutka-Souza durante uma espécie de “raio-x” da fala com exibição de imagens da paciente, realizado em setembro de 2005. “Aqui é tudo muito legal”, repetia Dhiully sem esboçar o que seria um natural cansaço pelas 14 horas de viagem de ônibus entre Palma Sola e Bauru.
O entusiasmo é compartilhado pela mineira Vera Lúcia Arruda, 39 anos, mãe do garoto Vitor Augusto Arruda da Silva, de 5 anos (foto ao lado). “O Vitor se encaixava perfeitamente no perfil dos pacientes pesquisados. Ou seja: eles precisavam do meu filho e eu deles.”
Flórida II já pesquisa crescimento da face
Como ganhou fôlego para avançar por anos a fio - com financiamento do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, sigla em inglês) -, o projeto despertou a necessidade de busca de respostas complementares às respostas relativas à fala do paciente.
Por isso, já está em curso o chamado “Flórida II” - novo projeto que vai pesquisar aspectos do crescimento da face e dos arcos dentários, além da fala dos mesmos pacientes pesquisados até então. Agora, com idade entre seis e 12 anos. Nesta nova fase, impulsionada no início desse semestre, participam profissionais das áreas de fonoaudiologia, ortodontia e serviço social.
“Agora que já tivemos oportunidade de avaliar o desenvolvimento da fala do paciente em relação às técnicas cirúrgicas utilizadas e à idade, queremos estudar qual a técnica que menos interferiu no crescimento facial e também na fala desses mesmos pacientes em até dez anos após a cirurgia”, explica Pegoraro-Krook.
Com investimento de US$ 2,5 milhões, a pesquisa tem aprovação do Conep/MS (Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde) e do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (N.I.H.), que também financia o trabalho. A exemplo do “Projeto Flórida”, o “Flórida II” reúne tem grande relevância para a comunidade científica internacional. O prazo previsto para o desenvolvimento da pesquisa é de cinco ano

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